ARTIGO DE UM ESPECIALISTA EM FILOSOFIA CLÍNICA
autor - Francisco Tibério Araújo

data - agosto de 2007
título -
A prática filosófica: uma simples reflexãocidade - Cajazeiras (PB)
Considerações acerca da aplicação prática no âmbito da filosofia é motivo de repugnância para muitos catedráticos dessa área do conhecimento, sob a alegação de que no ramo da filosofia não existe a possibilidade do sentido prático, porque ela é meramente teórica, portanto, sem nenhuma vinculação com a busca de solução de problemas, mas somente utilizada para questionar e buscar a verdade. Nestes termos, teria o conhecimento filosófico aplicabilidade de ordem prática? Poderia a filosofia ter como fim, também, auxiliar na solução dos problemas?
A filosofia acadêmica, no que pese ser toda a base desse conhecimento, não se pode furtar ao fato de existir a possibilidade da aplicação desse conhecimento nas busca de soluções para os problemas cotidianos, a exemplo da dinâmica vivencial. Se o interesse primordial da filosofia é com os problemas não resolvidos, como afirma o professor Francisco Xavier Teles, pergunto, não seria a utilização prática do conhecimento filosófico que proporcionaria a oferta de respostas adequadas, ou melhor, que possibilitaria a solução dos problemas não resolvidos? E o que é isso, senão utilização prática da filosofia? Teles compreende que a filosofia pode ir além do campo teórico e ser instrumento que transcenda a simples transmissão de conhecimento, porque para ele “a atividade filosófica mais importante consiste no esforço sincero e na procura inteligente de soluções para os problemas que afligem a época em que vivemos”.
O que fazia Sócrates com sua maiêutica na Ágora em Atenas? Que ele filosofava todos sabemos, mas que também existia um sentido prático para ajudar seus interlocutores, nem todos graduados e entendidos da filosofia contemporânea querem compreende ou admitir. Pois bem, a filosofia pode sim servir de parâmetro de ajuda, ela pode sim auxiliar e proporcionar a execução de atividades práticas, que objetivam e facilitam o viver humano. O entendimento da filosofia como descrição histórica do processo de conhecimento ou como explicação da realidade universal em seu conjunto, deve continuar, entretanto, não se pode negar sua contribuição aos aspectos práticos do viver concreto com suas necessidades.
Ora, se os efeitos da filosofia se fazem presentes nas pessoas que passeiam pelo mundo do conhecimento, que estudam e admiram o filosofar, que inexoravelmente se sentem com bem-estar ao se deliciar com uma obra filosófica, é porque nela encontrou elementos de satisfação que superam a expectativa intelectual. Cioran já dizia que “A filosofia serve de antídoto contra a tristeza”, indício suficiente para demonstrar os efeitos práticos desse conhecimento sobre o estado subjetivo do ser. Da mesma forma Epicuro afirma que “Qualquer argumentação filosófica que não tenha como preocupação principal abordar terapeuticamente o sofrimento humano é inútil”. Se, como afirmei, os efeitos da filosofia se fazem notar sem maiores problemas, porque então a academia se preocupa tanto com a aplicação prática da filosofia, quando verdadeiramente deveria estar focada para o grave problema da falta de filosofia em seu meio, como frequentemente acontece, salvo raras exceções?
A Filosofia Clínica, criada no Brasil pelo professor Lúcio Packter, não apenas responde a essa necessidade de demonstração da aplicação pratica da filosofia, como também abre espaços para novas possibilidades de pensar filosofia enquanto doutrina, voltada para locupletar as necessidades existenciais nessa época de tantas turbulências. Além de palavras, pensamentos, sistemas e tantas outras coisas, precisamos de ações, de decisões, de apoio, cooperação e compreensão dentre outras inúmeras necessidades e, se a filosofia pode ser utilizada para auxiliar e para fornecer um caminho, porque não trilhar em sua linhas, que se fundamentam em mais de vinte e cinco séculos de existência?
Durante o IX encontro Nacional de Filosofia Clínica, realizado em São Paulo no final do mês de abril, Lúcio Packter afirmou que essa é uma caminhada difícil, mas é um caminho sem volta, porque a Filosofia Clínica possui uma linha de trabalho que respeita todas as outras possibilidades, que a clínica filosófica não é o caminho, porém, um caminho que objetiva ajudar o outro em suas necessidades existenciais. Ele também disse que “Depois da Filosofia Clínica, a filosofia acadêmica não será mais a mesma”. Essas afirmações apontam para uma nova realidade filosófica que desponta no Brasil e chama a atenção de vários países, sendo inclusive exportado para outras nações do mundo ocidental. A meu ver, essa é a primeira oportunidade em que a filosofia brasileira é visualizada como algo diferenciado, sem nenhum demérito para as correntes filosóficas existentes. Por esse motivo Packter e a Filosofia Clínica merece destaque e reconhecimento.
A humildade com que Packter fala da Filosofia Clínica não deveria assustar tanto aos filósofos, que antes de repudiar e criticar a iniciativa dessa engenhosa maneira de tratamento psicoterápico, deveriam ao menos conhecer melhor seu funcionamento, através de seus métodos integrados, que acima de tudo respeita a singularidade e unicidade de cada história de vida. Mas como costuma dizer Packter, “a crítica é muito bem vinda e é natural que aconteça”. Acho que tudo que é novo desperta atenção e sendo novo e producente então, deve gerar certo frenesi na malha intelectiva dos academiscistas de carteirinha. Buscar a superação é a missão de cada sujeito em seu exercício vivencial e todos são muito bem vindos a Filosofia Clínica, muito embora, em alguns casos, a compreensão não aflore naturalmente, devido ao engessamento cerebral existente, que necessariamente precisa ser quebrado para poder acessar a dinâmica da clínica filosófica em toda sua plasticidade.