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O que traz alguém como Nayla ao meu consultório? Ela
descobriu que o homem mais velho com quem ela convive
intimamente fora do casamento a traiu com outra mulher,
uma desconhecida que ela pesquisou em bolsos, contatos
de chamadas não atendidas, MSN e tardes de espreita em
frente ao apartamento do homem. A queixa de Nayla é que
não se pode mais confiar em ninguém, o mundo perdeu o
rumo dos valores, os sentimentos são agora escambo.
Nayla casou para ter uma família. Nunca procurou por
qualquer coisa fora do casamento que lembrasse um
relacionamento íntimo, aconteceu apenas. É como se o
compromisso do casamento, a trajetória que percorreu
existencialmente no casamento tivesse como consequência
necessária a passagem por uma vivência aparentemente
paradoxal. O casamento, se existe um culpado, a levou a
isso. O relacionamento afetivo de Nayla fora do
casamento a tornava alguém melhor, melhor mãe, melhor
esposa, melhor amiga, melhor Nayla em si mesma e para
todos.
Pesquisando as questões internas em Nayla e sua
organização existencial, algo se tornou aparente: um
casamento para ela envolveria um terceiro, um
relacionamento íntimo com um segundo homem.
Muitos aprendem que coisas como um casamento, uma
família, uma amizade, uma atividade têm linhas exatas
nos quadrantes de demarcação, espaços iluminados que
apontam limites, riscos e marcas no ar e nas paredes,
portas e chaves para afirmar o que está em um lado de
dentro e em um lado outro qualquer.
Muitos aprendem que estas coisas não funcionam assim e
não sabem disso até que finalmente constroem uma
família, um trabalho, uma vida. Então descobrem.
Nayla não vai para o inferno, não vai para o céu e não
existe um lugar para ela. Este lugar que não existe para
ela é o espaço que se cria entre espaços e que desafia a
alma que tenta se comportar como se fosse uma coisa. No
caso dela, foi isso o que aconteceu. |