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Há quem divida as coisas
de tal forma que o que é visível é educado, penteado,
possui vida pública; os invisíveis da vida, como o
pensamento, podem ser deixados aleatórios, soltos,
selvagens em seus domínios, mal criados. Não é
liberdade, é desleixo. Não é autonomia, é descuido. É
negligência também. Mas isso somente se estende aos
invisíveis. Quando o pensamento se torna visível,
segundo a métrica de quem o divide assim, então
imediatamente ele se torna educado e solícito, social,
mostra urbanidade. O pensamento se torna visível quando
a pessoa vai expor um assunto no qual acredita, por
exemplo. Mas, ainda assim, em tal caso há dois
pensamentos básicos: um é educado segundo os preceitos
mais profundos da hipocrisia convencionada; o outro,
sincero e desleixado, desmazelado e porco, não aparece.
Alguns que dividem as
coisas desta forma, pelo próprio estilo alcoviteiro,
oculto, esquivo com que moldam ao relento suas ideias,
podem achar que têm neste pensamento subsidiado um
aliado. Os motivos pelos quais alguns creem nisso vai da
proteção que dão à má educação até certas cumplicidades
que só são subscritas nas alcovas de porão, sem passagem
para a luz.
Eis que um dia o sujeito
está alquebrado pela vida, mal sucedido em suas
empreitadas de vivente urbano. Precisa de forças, de
amizade, de quem lhe dê tapinhas às costas. A parte que
educou de seu pensamento vai tratar disso, marcará os
exames cardio respiratórios, procurará amenidades e
buscará os auxílios. A parte má educada pode incomodar
com incriminações; tachar, inculpar, imputar faltas ela
usualmente poderá fazer; e, como é aleatória, mimada,
inexperiente em coisas que exigem educação, chutará para
os vários lados, contra, a favor, nem sempre separando
as coisas; pode se tornar intransigente, irritadiça e
recorrente em suas constantes interferências no humor,
na alma, na pouca alegria que ainda resta para viver.
O pensamento mal educado
não é mau, é apenas mal educado. Ele se comporta como um
filho que não recebeu instruções de urbanidade, não sabe
respeitar um velho pai, nem a si mesmo, e quando tenta
fazer isso é usual que tudo se passe ao contrário.
Por que não educar o
pensamento, tal qual fazemos com a higiene, a
alimentação? Educação rima com liberdade, com cabresto,
com autonomia, com escravidão. Em alguns casos é até
mais indicado um pensamento mal educado do que conceitos
vitorianos; em alguns casos.
A educação do pensamento
seguirá os indicativos do que é próprio, pertinente,
peculiar a cada pessoa. Não existe aqui uma regra, mas
uma intenção. Educar segundo o que está em movimento
desde cedo. Por exemplo: um sujeito com propensão a
artífice que vai lidar com ferro recebe instruções neste
sentido, assim como uma pessoa dócil e inclinada
kantianamente aos preceitos exatos receberá réguas e
esquadros para desenhar seus conceitos.
Um trecho de um escrito
de Amadeu Amaral como ilustração:
“Para um simples
passageiro de bonde, as ideias são como os bilhetes de
loterias: é preciso jogar em muitas, para ter
probabilidade de acertar em alguma. E ainda o melhor é
não acertar. Criar fama de rico é uma das mais graves
maçadas que possam cair sobre quem não necessite de
tanto numerário. Responsabilidade social muito pesada.
Admiradores. Compromissos. Facadas, amabilidades,
invejas, intrigas, amofinações... Que bom travesseiro, a
pobreza! A mim, o que me fez sorrir diante do
louva-a-deus foi o riso dos outros, tão saudavelmente
natural e estúpido. E foi também o próprio louva-a-deus,
natural e bobo como esse riso.” |