ARTIGO DE UMA FILÓSOFA
CLÍNICA
Título - Vida em Processo
autora - Vânia Dantas
Cidade - Uberaba (MG)
Retomando o pensamento da irmã de caminhada Ubiracy, cada pessoa tem um remédio. Assim também, cada qual irá se adaptar a uma religião, ao estudo, às estruturas de carreira e lazer. Opções direcionadas por culturas diferentes. E como disse há muito tempo um amigo, durante um curso esotérico, "se nós nem conseguimos realizar o que é deste mundo, como alcançar o que é do outro?"
As coisas estão aí para serem vividas. A glória para uns seria jogar as emoções e os desejos fora para conseguir se levar uma vida coerente com princípios e metas; no entanto, são partes do ser que às vezes conseguem ser silenciadas, noutras não; às vezes conversar ajuda, substâncias ou doutrinações resolvem temporariamente, mas faltamente se cai no que se consideram os maiores defeitos; porque é preciso lutar com eles.
E, além disso, é preciso se perdoar por recair em erros que se trabalha para modificar, apagar; contudo, houvesse perfeição, a história seria outra e o trabalho também.
A influência hormonal, a nutricional – alguns milagres acontecem; há dias em que se consegue ver a vida placidamente. Para alguns, o remédio está em si próprios, altamente racionalizados, capazes na condução de sua existência. Outros vão com muita sede ao pote. Estará rachado? Estará vazio? A água é salobra? Para estes, há a alternativa de ser a raposa das uvas. Ou de aprender escalada.
Muitos irão se engajar em grupos na tentativa de talvez entender, ao final, que a resposta estava em seu próprio silêncio.
Seus modos de melhora você conhece ou experiencia; há validade nas mais diversas formas de tratamento – ou de busca de bem-estar. Dos antibióticos à homeopatia, da cura pelas mãos à das ervas; da meditação ao canto. Dos homens de branco aos elementais da natureza.
Não importa se através de PNL, dança, trabalho voluntário, jardinagem... a auto-cura existe; aliás, somente ela. Tudo o que se fizer em torno será apenas para resgatar a possibilidade de cada um mover a fagulha em si mesmo e chegar ao desfecho necessário, a condução da existência.
Em resumo, prevalece a consciência sobre si; o seu processo, a sua vida. O seu desejo é para onde se dirige o seu ser. “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração.” (Mt. 6:21)
Título - As pedras de Goiás Velho
Santuário, andor, altar, escada na cidade histórica. Retratos de um tempo que está ficando passado mas que a gente talvez tenha que revisitar.
A cada dia a mensagem no programa matinal na TV elogia a retomada das forças e dos valores; ao que parece, enterrados em várias pessoas. E, de repente, viram flores. Esses são relances de quando o ouvinte se sente bem e tem ousadia de planejar agir, enquanto aos primeiros passos já é preciso parar e repensar a viabilidade do projeto, pois há desequilíbrio devido à compressão medular.
A degeneração precoce leva a pensar em como se resgatar do chão e como viver uma terceira em tenra idade. A ambiguidade de uma vida assim confunde: a idade cronológica, a biológica e a que a estética revela. E também porque não há deficiência, mas doença e dor; parece não haver soluções garantidas, mas paliativos com efeitos colaterais. E o que pedem é ‘descanso’, quando se está cansado dos repousos forçados.
São questões do corpo que atormentam tanto a parecer que ele ocupa todo o tempo, o abstrato se foi, ficou na estrada... por algum tempo a vida acaba sendo tão dura quanto as pedras de Goiás Velho.
Por que o andor deve ser pesado.
Por que os nichos têm pedras arredondadas, para harmonizar a colocação dos seres minerais.
Por que para se chegar ao santo se beija as pedras.
Como os nichos que trazem imagens escondidas por entre as pedras, aí está a essência. Almas se escondem em corpos perfeitos e sentimentos horríveis...
Por instantes inspirados é possível imaginar um apanhador de sonhos, solto no campo de flores de ervilha; emocionalmente se volta no tempo e recolhe cada sonho para continuar lutando/vivendo; e se debruça também sobre a realização deles, em detalhes; o reforço das crenças, a confiança na vida. A importância desse momento talvez só possa ser entendida por quem já perdeu algum dia as esperanças, por completo. Como se diz, viver assim é "morrer em vida". É a mais pura realidade.
Enquanto há vida, há que se lutar, mesmo que os movimentos se despeçam, os músculos não obedeçam e o esqueleto pese; mesmo que o corpo se torne independente, suas ações se tornem involuntárias e se queira andar pra esquerda, mas vá para a direita.
Dia desses, havia uma cadeira de rodas na vizinhança, mas não era na garagem, vazia; esse aparelho era como um auxiliar, equipamento para continuar a exercer atividades, assim como a bengala, a muleta, o andador. Ou como o carro. Na recusa daqueles, pode-se usar de “bengalas humanas” – e há quem aparentemente não precise, mas usa.
O andar cambaleante, um efeito da doença degenerativa da coluna, traumatiza bastante, assusta, algumas vezes lembra os impedimentos e as limitações que a vida impõe de forma prematura. Assim, a pessoa pode ver-se jovem e ao mesmo tempo velha; um sorriso deslumbrante e instantes depois, ou mesmo concomitantemente, as lágrimas de dor caindo. Parece que o equilíbrio se torna latente, alternado, tanto nas emoções quanto no corpo.
Existe a noção de que enquanto há vida é preciso continuar; em muitos momentos é preciso se forçar em algumas atividades para que lá na frente se chegue ao alívio... talvez o mesmo alívio que se sente algumas vezes na vida, como quando se livra da rinite e consegue respirar normalmente o ar, um alimento que já não dói nas mucosas e consegue entrar em grande volume, absorvido com vontade igual a quando se tem muita sede. Ou quando se estanca uma hemorragia, de repente, e não se vê mais o corpo indo embora aos poucos.
Em alguns momentos é possível um reviver, como se voltasse ao normal, o metabolismo normalizado, a vontade de viver, o brilho, a sensualidade. A dor continua, tal vizinha má que a gente deixa de lado. Até quando? Um resultado que não se esperava mais – um dia sem dor - é um presente.
As doenças crônicas exigem um amadurecimento muito grande, por um lado. Subindo os degraus, às vezes há recaídas. Vários desafios vencidos – talvez, se anunciados antes, provavelmente não teriam sido aceitos. Assim, as pedras das cidades históricas e às margens das cachoeiras marcam muito; as inclinações, os formatos, os tamanhos, como se todas fossem obstáculos a gerarem sustos, medos, incredulidade.
E, de alguma forma, talvez sejam as pedras as próprias metáforas da vida; de que se tem uma história muito única de limitações ao mesmo tempo em que de talentos. E para suportar viver com isso, somente saindo de si, somente buscando objetivos além do normal, as atividades não regulares, adaptações e saber conviver com contratempos constantemente, com cada desequilíbrio (de insegurança), cada pontada (como se de faca), cada irradiação aguda (como um corte).
Durante as manutenções, mais conhecidos por tratamentos, aos poucos se consegue refletir sobre algumas coisas muito importantes para se achar meios de enfrentar o período de sofrimento físico; existem os baques e parece ser preciso força demais pra enfrentar, mas quando se decide a isso, esta é a motivação. É como uma provação em que se tivesse que firmar as raízes em termos de fé, de persistência e de ousadia, até mesmo para retomar os projetos de vida.
Mas, enfim, há pessoas que precisam ser tão forte como as pedras.
Daí, um último pensamento no qual se pode encontrar uma explicação para que a vida tenha sentido. Ele pode ter um valor enorme, quando alcançada a sua verdadeira dimensão. É o lema dos maratonistas de Uberlândia, associado à imagem de Ayrton Senna: "pain is temporary; proud is forever".
As pedras a se enfrentar...
título - Reconstrução - o de dentro e o de fora* - uma revisão de categorias
* Em referência à amiga Olga Hack.
autora - Vânia Dantas
Saber que a validade de submodos para um momento pode não se dar em outro, tanto quanto de pessoa para pessoa é tão importante quanto saber que o álcool corrói os ossos, mas às vezes é necessário para superar momentos. E ter a consciência de que há formas inusitadas de buscar o equilíbrio, gangorrando nas pequenas balanças de dois pratos, com pesinhos dourados, que se via nas feiras de antigamente.
Nas vivências de grupo como voluntária na Associação de Amparo às Crianças, Adolescentes e Adultos com Câncer, de Uberlândia, observei como a atividade terapêutica ocorre nos dois vieses ao compor o movimento próprio do compartilhar. Considero que esse trabalho alcançou resultados muito bons em sua consecução pela leitura dos dados dos componentes do grupo. Observei a confiança das mulheres ao falarem sobre alguns pontos de sua história, livremente, em sinônimo de boa interseção, num momento tão dolorido para todas. Entendi como a atividade funcionou como um acolhimento que tantas citavam ao falar sobre sua participação como beneficiárias na Associação do Câncer e como o abraço espontâneo ao fim das sessões coroava o sentimento bom que elas cultivavam durante a reunião.
E, lógico, esse foi um trabalho difícil; algumas situações tocaram profundamente e algumas vezes, ao término das dinâmicas, entrava na Igreja Nossa Senhora Aparecida, a igreja do meu bairro, detentora de detalhes de toda a minha história, para chorar. Sim, ali ancoro minhas emoções mais caras, é o símbolo físico da minha trajetória, minha alma está nas construções. Hoje entendo como a reforma que substituiu os ladrilhos antigos, coletores de minhas lágrimas primeiras, pelos granitos espelhados são reflexo da própria superação pela qual passo.
Assim, o movimento interno se dá em íntima relação com os fatos externos e às vezes a realidade se plasma conforme aos sonhos (aqui vistos como objetivos cruciais); como em mágica, eles às vezes se materializam em profusão e renovam a crença em si mesmo, a palavra de ordem é “lutar”.
Hoje há uma nova relação com o espaço, uma nova visão desse lugar que é o corpo, foco de prazer e alegria, onde outrora só havia o inverso. Ponto de expressão, ressalva e maturidade. Desenvolvimentos tardios para quem sempre foi autodidata e preferiu o destino de mariposa ao das formigas teleguiadas por outras como a fila dos zebus, andando em fila indiana pelo campo. Os primeiros zebus foram trazidos da Índia por fazendeiros de Uberaba.
Junto com o cuidar de si ao colocar as meias e se respeitar ao só se permitir a quem realmente quiser vieram outras éticas, como só se deixar levar à parede por vias de sedução, nunca pelo poder do outro de intimidar. Consigo hoje não apenas entender que carinho não é favor, que a satisfação não é obrigatória e que gentileza não gera dependência. Enfim, eram palavras que conceitualmente sempre abracei e que agora posso viver, sem receios, como um ser de marketing: original, espontâneo e criativo.
Estou aprendendo que a história não nos explica mais, por completo. Estamos livres. Está passando o tempo das prisões físicas e das prisões da alma, o fim da rigidez rumo a experiências mais leves e ressignificações.
Existem muitas teorias para o bem-estar; posso dizer que, dentre meus sofrimentos físicos, emergem de repente momentos extremamente felizes, muitos até imotivados, tanto que chego até a repetir a frase dita por meu filho há uns dois anos e que mais me surpreendeu até hoje: “Viver é bom!”
Alinhavando esses momentos felizes, creio ter montado um colar de felicidade (coisa que para alguns não existe, somente momentos fugazes – ilusórios – conforme a corrente religiosa a que pertença), de bijuteria verde água, tal qual o de cristal dos anos 60, herança de minha mãe.
Chego a pensar que o infinito é melhor entendível pelo presente. Tudo que existe só tem razão neste momento. Não se precisa de esperanças quando se consegue segurança e força em si mesmo e nem se precisa do passado para justificar atitudes diversas. É como deitar no rio, de largura nem calculada e se deixar flutuar, sem preocupação alguma, sem dúvidas consigo e pronto para o que vier.
Entendo, feliz, que novamente sou outra pessoa, que aqueles padrões não me servem mais. Entendo esse período como minha adolescência onde provavelmente parei de me desenvolver singularmente para iniciar uma, digamos, família que nunca pretendi e que hoje abraço com toda força, mesmo que seja uma família em moldes modernos. É para onde retorno para amarrar o fio da minha alegria, com as roupas e a atitude de quem só ouve rock, o cabelo trançado em tirinhas de couro; somente agora pude ser mãe, dona das minhas coisas e ainda assim ser mais livre do que nunca.
E, como numa prece, reverencio.
Namastê
O deus que habita em mim saúda o deus que há em você.
título - A Ameaça da Relação à Identidade
cidade - Uberaba
(parte do livro “Identidade e construção de si: um estudo acerca da Relação”, a ser publicado em breve)
A predominância e o peso de tópicos, submodos, circunstâncias ou demais categorias em torno de que são realizadas as trocas, numa relação, irá definir a profundidade desta, podendo arrastar o sujeito a modificações estruturais, uma vez que, segundo Packter, as estruturas são plásticas, adaptáveis; logo, passíveis de processos de expansão ou fechamento.
Na relação apaixonada pode-se perceber um movimento de identidade e modificação de atitude sem, no entanto, ser considerada como patologia. Entretanto, as relações com o outro podem resultar em alterações substanciais na forma do sujeito ser no mundo. Analisamos a seguir duas formas de cruzamento de estruturas e as conseqüências que acarretam para os envolvidos, quando ocorre a restrição do “si”, motivada pela preponderância da relação.
A positividade ou negatividade de uma relação pode trazer riscos à manutenção da imagem de si mesmo, como a situação chamada por Packter de “estrutura eclipsada”, na qual a forma do sujeito estar no mundo é sobreposta pela do outro, um só existe com o outro, tornando-se sombra. Tais situações parecem resultar de acordos entre as partes, nos quais se contrata formas de ser em que há intensa assunção de uma vida sobre a outra.
A relação contém ainda a possibilidade de levar os sujeitos participantes a uma imersão completa de um no mundo do outro, cada um no ser do outro, característica de sentimentos profundos que produzem uma indefinição de contornos das estruturas envolvidas, como se os tópicos se rearranjassem, com adaptações que resultassem em percepções e modos de ser paralelos, apesar de serem diferentes as circunstâncias, o lugar e como se a relação fosse eterna, sem começo ou fim, ao longo de várias vidas. Tal conformação pode beirar o alienar-se, uma vez que as demais categorias se dissolvem para existir, aparente e predominantemente, apenas a relação.
A fusão das estruturas, numa relação como esta, pode significar o retrocesso de cada uma delas no sentido de que o “si” passe a não ser mais visto, substituído por um “nós” absorvente e contemplativo. A estrutura desse terceiro outro passa a ser maior do que as estruturas dos sujeitos que a sustentam e ocorre o seqüestro da subjetividade[1].
A ameaça de desintegração de si, a cisão da personalidade e o conflito alma e corpo podem ser, em alguns casos, facilmente identificáveis através de modificações de atitude perante o mundo e em consideráveis alterações tópicas perceptíveis em áreas diversas do ser, como por exemplo, na ocorrência de doenças, demonstrações claras de somatização.
Uma outra forma de traição a si mesmo numa relação, segundo Packter, é projetar no outro expectativas demais, ver nele a possibilidade de realizações pessoais e tê-lo como espelho baço da própria existência. E exigir demais do outro também significa esvaziá-lo de sentido, uma vez que não poderá corresponder a todo o conteúdo desejado, o que gera a frustração.
[1] Vide MELO, Pe. Fábio. “Quem me roubou de mim? – O seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa”. São Paulo: Ed. Canção Nova, 2008.
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