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ARTIGO DE UM ESTUDANTE EM FILOSOFIA CLÍNICA
autora - Flávio Sobreiro
título
- Confissões de um filósofo
cidade - Campinas
Texto 1
Confissões de um filósofo
Fui apresentado a Filosofia bem antes
de a conhecer pessoalmente. Havíamos tido alguns encontros esporádicos no Ensino
Médio. Falavam-me de Platão, Aristóteles e outros. Pouco compreendia. Acredito
que meus professores compreendiam menos que eu.
Logo de inicio, nosso encontro não foi
nem um pouco agradável. Ela era densa e me parecia bastante fechada em si mesma.
Não conseguia ver nela nada de prático. Debruçava-me sobre aqueles que buscavam
compreende-la. Por noites afins ficava a imaginar que ela poderia ser um
pouquinho mais acessível. Porém seus amigos criaram em torna dela um muro com um
belo portão. Onde somente eles pareciam ter a chave que dava acesso ao seu
coração.
De longe eu a olhava. Tinha medo de me
aproximar um pouco mais. Como conversarmos com alguém que não compreendemos? Dar
o primeiro passo? Ótimo! Mas para se dar um primeiro passo é necessário que você
tenha ao menos alguma segurança. Infelizmente eu não tinha.
Por muito tempo fomos assim: distantes.
Se ela era amiga dos sábios, para mim ela era inimiga dos humanos. Somente os
racionais conseguiam desvendar o que se passava em sua alma. Escreviam livros e
livros sobre aquilo que ela era, ou pelo menos deveria ser.
Aos poucos me vi cercado de volumes
densos de leitura incompreensível. Seria eu destituído de inteligência para
compreender o que aqueles seus amigos escreviam a seu respeito? Por muitas
tardes pensei que sim.
Mas um dia tomei coragem. Aquela triste
situação que nos separava não poderia continuar. Resolvi colocar um fim naquela
novela mal começada. Aproximei-me dela. Olhei bem no fundo de sua alma. Falei a
verdade que habitava meu ser. Não queria ter uma amizade racional com ela. Se
fossemos ser amigos, seríamos amigos através da humanidade que habitava nossos
laços de um afeto mal resolvido.
Ela não me disse nada. Mas compreendi
que palavras não são necessárias quando o silêncio pronuncia o que não pode ser
expresso. E assim recomeçamos nossa amizade. Tornei-me seu confessor. Ela
falou-me das noites tristes que passava sozinha em sua casa, tentando
compreender o que dela escreviam. Confessou-me que tentavam fazer dela uma
espécie de objeto reflexivo. Muitas vezes ela deixou de lado volumes
incompreensíveis de analises obscuras, que sobre ela escreveram.
Disse-me que se sentia muito só. Tinha
sede do cotidiano, da vida e de poesia. E com ela partilhei meus rabiscos
poéticos. Ela parecia gostar e sorria para mim. Conversávamos sobre nossos
tempos de infância. E me falava de como nasceu. Seu cotidiano nunca fora
compreendido por aqueles que a conheciam apenas de longe.
Fiquei bastante espantado quando ela me
disse que muitos daqueles que se diziam seus amigos nunca haviam olhado em seus
olhos e compreendido que ela era tão humana quanto eles. Por vezes a encontrei
triste. E quando perguntava o motivo de tamanha tristeza ela respondia com os
olhos lacrimosos: “Esqueceram novamente da vida quando escreveram sobre mim”.
Certa vez pediu minha ajuda para fazer
uma limpeza em sua casa. Recolhemos livros que nem Deus conseguiria entender.
Guardamos tudo em caixas e mais caixas. Aos poucos aquela casa triste e obscura
foi ganhando tonalidades de vida. Trocamos as cortinas, colocamos flores nos
vasos, compramos livros de poemas... Plantamos um lindo jardim.
Estamos a cada dia nos tornando mais
amigos. Ontem mesmo a visitei. Ela estava pensativa. Contou-me que haviam
escrito um novo livro sobre sua vida. Disse-me que tem se sentido velha. Dei
risadas e lhe disse para não se preocupar com isso, pois ela é bem mais nova que
muitos de seus autores...
Flávio Sobreiro
Filósofo pela PUCCAMP, Teólogo pela
FACAPA, Escritor e Poeta.
Estudante de Filosofia Clínica de
Campinas - SP
Texto 2
Confissões de um filósofo
- sobre a dor -
Nas grandes ausências do cotidiano ela
se apresenta. Não escolhe os dias nublados, nem as manhãs de ressurreição. Sua
presença é tão constante na experiência do viver como a brisa serena em uma doce
tarde de verão. Não espera elogios, nem mesmo agradecimentos.
Arthur Schopenhauer assim escreveu
sobre ela: "Quem deseja. Quem vive deseja. A vida é dor". Até mesmo Sêneca se
aventurou por suas veredas: "Uma dor nova nasce da própria dor”.
Nenhum pensador poderia apagar de minha
alma a sua presença desagradável. Queria esquecer-me dela assim como a noite se
esquece das trevas dando lugar à luz de um novo dia. Mas ela insistia em querer
permanecer ali. Fizera sua morada em terras alheias. Tomara posse de um terreno
que não lhe pertencia. Protestei, reinvidiquei meus direitos de proprietário.
Lutei pela desocupação de terras. Tudo foi em vão. Só iria embora quando
desejasse. Para mim não me restava outra alternativa, a não ser aprender a
conviver com ela.
Foi sofrido nossa permanência num mesmo
território chamado coração. Pedi muitas vezes que fosse embora. Chorei e
implorei para que partisse. Sem nenhuma compaixão pelas minhas suplicas
continuava ali. No mesmo lugar. Parecia feliz com o meu padecimento.
Aos poucos ia me definhando. Semelhante
às folhas que precisam cair dos galhos de uma árvore para dar lugar a novas
existências. Sentia que o inverno que havia chegado seria um dos mais rigorosos
dos últimos tempos. Ansiava pela primavera de esperanças.
Éramos guerreiros lutando cada um por
sua verdade. Ela de um lado, quieta e resistente; eu do outro, armado e
atacando. Lados opostos, estratégias desiguais. Mar agitado e lua cheia, serena
e bela.
Dentro de mim buscava razões para
vencer uma guerra que não parecia ter fim. Foi buscando as armas da razão que
poderia vencê-la que encontrei-me com C. S. Lewis. Ele me disse: "Deus sussurra
e fala à consciência através do prazer, mas grita-lhe por meio da dor: a dor é o
seu megafone para despertar um mundo adormecido".
A minha razão sempre fora o meu deus. E
agora me vinha este tal C.S. Lewis falar-me que Deus gritava a minha consciência
através da dor? Que loucura. Quando minha rival soube disso deu um leve sorriso.
Este gesto inusitado de sua parte causou-me uma revolta ainda maior.
Mas cada vez que eu ia armado para um
novo combate eu via o seu sorriso sereno. E cada vez ele me parecia mais doce.
Tão doce como as maças vermelhas e suculentas que havia provado em minha
infância.
E foi assim, olhando para o seu sorriso
de possibilidades que foi se despertando dentro de minha alma um novo mundo. O
deserto que nos separava começou a florescer aos poucos. O orvalho das manhãs
frias ia aos poucos dando vida ao que já estava sepultado pelas longas lutas de
uma guerra de incompreensões.
E foi assim que em uma manhã de sol, o
frio daquela triste estação arrumou as malas e foi embora, dando lugar a
primavera que estava chegando. Ela deu-me um abraço. E assim partiu. A primavera
de uma nova existência chegou. O que a estação fria do inverno havia sepultado,
a primavera da compreensão ressuscitou. Naquele novo jardim de possibilidades
coloquei uma linda placa onde ainda hoje se pode ler: "Ninguém pode livrar os
homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a
suportar" (Selma Lagerlof).
Flávio Sobreiro
Filósofo pela PUCCAMP, Teólogo pela FACAPA,
Escritor e Poeta.
Estudante de Filosofia Clínica de Campinas
- SP
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